15.11.07



«Garage» Lenny Abrahamson 2007 (filme)

Àparte: Ao que parece, 2007 é o ano em que os novos cineastas - mas não só - exploram universalmente a desadaptação social, a solidão, e depressão e o suicídio, pela mostra que o European Film Festival Estoril nos destaca...
Josie é uma espécie de semi-tolo da aldeia, bem intencionado e com o coração enorme, sem a noção do que é socialmente correcto, como uma criança grande. Trabalha numa gasolineira, e lida com a rotina lenta e diária de uma pequena vila irlandesa. Quando um rapaz, menor, chega para ajudá-lo, a dificuldade de Josie em querer «pertencer» traz-lhe problemas, para ele coisas de somenos importância, para as regras rígidas de uma pequena povoação transgressões graves. E Josie não consegue lidar com as consequências daí decorrentes... Bela interpretação do comediante Pat Shortt num drama sem luz. ***

14.11.07



«A Bude Hur» Petr Nikolaev 2007 (filme)

A Checoslováquia nos tempos da repressão comunista, em colisão com as franjas rebeldes da adolescência. A preto e branco, um retrato crú de uma geração inconformada com o contrôle que o Estado exercia nos países de Leste nos anos 70. Singular, uma vez que toda essa fase nunca foi muito documentada pelos media europeus - percebemos que o que se passava na Checoslováquia não era muito diferente daquilo que se passava em Moscovo ou do que se tinha passado há 30 anos na Alemanha de Hitler. Explosões de liberdade no limiar de serem apenas pura libertinagem, incongruências de uma geração à solta e sem limites, paradoxalmente dentro de um país fechado e observado à lupa da «segurança interna». Um filme que, extravazando a sua própria anarquia resistente, não será exibido no circuito comercial, apenas em festivais e eventos. ***

«L'Été Indien» Alain Raoust 2007 (filme)

Um drama nas alturas, perto da loucura face à culpa de um passado que não se pode alterar, embora se alimente essa ilusão em desespero. Filmado nos Alpes, a história de um homem de quem a mulher fugiu, deixando-o com uma filha de 5 anos. 13 anos depois, a difícil relação de um pai com a filha a entrar na idade adulta, e o doloroso convívio com uma vida que ficou muito aquém daquela com que se sonhou. O que acontece à grande maioria da população humana, só que felizmente também a grande maioria aprende a lidar com isso de melhor forma... ***



«Eastern Promises» David Cronenberg 2007 (filme)

Um filme em que Cronenberg cumpre não será um filme que surpreenda, face à carreira inovadora do realizador. Com óptimas performances de excelentes actores, Viggo Mortensen, , Vincent Casel e Armin Mueller-Stahl - Naomi Watts está sempre bem, embora no filme não tenha de todo o foco - esta história sobre a Máfia Russa em Londres está bem contada, com a violência cruamente retratada como só Cronenberg sabe, com o twist da praxe, e competentemente filmada. Mas espera-se sempre algo mais do realizador de eXistenZ e Videodrome... ***

12.11.07



«Le Tueur» Cédric Anger 2007 (filme)

Um thriller em jeito de film noir, um exemplo de como os filmes podem ser simultaneamente apelativos ao grande público e inteligentemente interessantes. Quando o filme arranca ao som dos Devo, quase que sentimos que nada pode correr mal, mas é apenas um desejo. Depois, quando a trama se enrola até ao fim dos cerca de 90 minutos da duração do filme, descobrimos dentro dela os conceitos de romance, da morte, do suspense, da família, do crime, da infidelidade, de uma série de lugares comuns bem engendrados e baralhados para dar de novo. Entretenimento e apenas algo mais do que isso. Um exemplo para o novo cinema português, que teima em estar apenas nos extremos... ****


11.11.07



«Control» Anton Corbijn 2007 (filme)

Entrando pela primeira vez no universo da ficção de longa duração, Anton Corbijn não pôde deixar de fazer um filme de um fotógrafo - parece que ele não gosta nada que digam isso... Mas ainda bem. E, na realidade, fez muito mais do que isso. É notoriamente um filme de um esteta, alguém que dotou a história da música popular com as suas melhores fotos, um realizador de inúmeros videos e concertos ao vivo que sempre primou pela excelência e coerência estética do seu trabalho. Nessa linha, a preto e branco, «Control» goza ainda da empatia que Corbijn tem com o tema em questão - confessou, na apresentação do filme, que foi a música dos Joy Division que o fez partir da Holanda para Londres, de máquina na mochila, à descoberta de algo que o deslumbrava...


Se no território das cenas de actuações ao vivo e na ilustração musical das imagens se percebe que é onde Corbijn está naturalmente mais à vontade, criando momentos de grande energia mas também de rara beleza, é na dramaturgia que surpreende, iniciando aqui um percurso promissor na direcção cinematográfica. E serão raríssimos os casos em que o filme é superior ao livro, embora Corbijn também faça questão de dizer que é apenas «baseado» no livro de Deborah Curtis. De uma enorme sensibilidade e poesia, afasta-se do realismo crú do livro e torna-se cinema. Não deixa, no entanto, de criar alguns nós no estômago a quem o visiona, e os últimos 15 minutos serão mesmo esmagadores para quem sempre se fascinou com o «mito» Ian Curtis. Porque Ian aqui é um poeta descalço, a sangrar devido à pressão a que diversas situações na sua vida amorosa e profissional o sujeitam. Ian é o anjo branco e negro mas também o pai e o marido que falha, o angry young man que não vai conseguir enfrentar o futuro que era brilhante. Um ser humano que, desadaptado, não consegue chegar ao fim do dia para poder dormir descansado. E que por isso, num momento de claravidência, se pendura para saltar na luz.****



- Para acabar, fica aqui transcrito o poema que poeta punk John Cooper Clarke - que faz de si mesmo com mais 30 anos em cima! - interpreta no filme (para ler depressa de um só fôlego):




the fucking cops are fucking keen to fucking keep it fucking clean the fucking chief's a fucking swine who fucking draws a fucking line at fucking fun and fucking games the fucking kids he fucking blames are nowehere to be fucking found anywhere in chicken town the fucking scene is fucking sad the fucking news is fucking bad the fucking weed is fucking turf the fucking speed is fucking surf the fucking folks are fucking daft don't make me fucking laugh it fucking hurts to look around everywhere in chicken town the fucking train is fucking late you fucking wait you fucking wait you're fucking lost and fucking found stuck in fucking chicken town the fucking view is fucking vile for fucking miles and fucking miles the fucking babies fucking cry the fucking flowers fucking die the fucking food is fucking muck the fucking drains are fucking fucked the colour scheme is fucking brown everywhere in chicken town the fucking pubs are fucking dull the fucking clubs are fucking full of fucking girls and fucking guys with fucking murder in their eyes a fucking bloke is fucking stabbed waiting for a fucking cab you fucking stay at fucking home the fucking neighbors fucking moan keep the fucking racket down this is fucking chicken town the fucking train is fucking late you fucking wait you fucking wait you're fucking lost and fucking found stuck in fucking chicken town the fucking pies are fucking old the fucking chips are fucking cold the fucking beer is fucking flat the fucking flats have fucking rats the fucking clocks are fucking wrong the fucking days are fucking long it fucking gets you fucking down evidently chicken town.

10.11.07



«Youth Without Youth» Francis Ford Coppola 2007 (filme)

Este é um filme que Coppola faz porque está a envelhecer. E isso é bom. O acto deste filme é de salutar: excluí-lo à partida dos grandes êxitos de bilheteira, através de um guião baseado numa obra com contornos filosóficos, que equaciona a busca da total sabedoria e felicidade. Para isso, a ideia secular da vida eterna, aqui aumentada com o conceito do super-homem nazi e da reencarnação em regressão, para compreender a morte na origem de tudo, é o motor de uma trama a vários tempos e décadas, desiquilibrada pelo amor, e, por vezes banal no crossover de imagens. E o resultado final acerta ao lado: num papel de carreira, Tim Roth tem sempre na sua sombra - até no seu «duplo» - a sombra de um grande cineasta, e é nesse conflito mal resolvido que a meu ver reside o «problema» do filme. O filme não é um erro, antes um belo falhanço... ***


«La Línea Recta» José María de Orbe 2007 (filme)

Uma bela surpresa de simplicidade e de um certo olhar. Cinema no seu estado mais puro, uma história em ponto morto, a solidão nos limites das grandes cidades. Mas o mundo roda enquanto o plano está parado à espera da próxima rotina, e os círculos fazem sentido. No final, a cena help the aged retribui uma outra ajuda de músculo e solidariedade que a protagonista - a «belamente» fechada e talentosa Aina Calpe Serrats - recebe de um «ancião». Um filme que passa por nós, devagar, sabiamente devagar, afinal, como a vida. ****

7.11.07



«Control» será ante-estreado em Portugal no European Film Festival do Estoril, a 10 de Novembro, pelas 22h, no Casino Estoril. Isso já muita gente sabe.
O que muito pouca gente sabe é que, na mesma noite pós-filme, Anton Corbijn, realizador e fotógrafo (Depeche Mode, U2, entre tantos outros...) será uma das personallidades presentes no Lótus bar, em Cascais, numa noite temática à volta dos Joy Division e das gerações de Manchester, com djing e projecções a condizer + banda ao vivo a anunciar.

1.11.07



«Wouldn't It Be Nice - My Own Story» Brian Wilson w/ Todd Gold 1991 (livro)

Lêem-se de um trago longo - fans only - as décadas da vida torturada de Brian Wilson, numa confissão por vezes brutal, por outras naive. Editada mesmo no final do reinado do Dr. Eugene «xamã» Landy - e os fans only perceberão as suas «limitações»... - esta biografia respira contudo verdade e integridade por todas as páginas. Brian desce ao seu ser mais fundo e esventra a sua vida nas muitas inferioridades com que sempre conviveu, na outra margem do seu génio enorme como compositor Histórico da música popular. Um Inferno psíquico lado a lado com a urgência de compôr a canção perfeita, na tentativa de ir mais longe, o que quer que isso queira dizer... Mas nunca se duvida das intenções do bébé grande que é Brian. Sucessos, mortes, traições, fracassos, terapia, famílias em cacos, abusos, alegrias, drogas, manipulação, obesidade, tudo ingredientes que fariam deste livro um filme muito mais interessante do que muitos que andam por aí a aproveitar-se de teorias de conspiração... Brian hoje é uma pessoa equilibrada, que nos últimos anos renasceu com a revitalização e justiça feita a obras maiores como «Pet Sounds» e «Smile». Faz tournés regularmente e edita Cds, livros e DVDs. Os outros beach boys que restam (os irmão Dennis e Carl já faleceram) limitam-se a abanar o esqueleto à custa de êxitos passados de Brian... Ficamos então - avidamente - à espera da segunda parte desta biografia!*****

24.10.07



«Inland Empire» David Lynch 2006 (DVD)

3 horas de filme, as «últimas» duas as mais impenetráveis. Mas em círculo - para quem já descodifica os tricks de Lynch, e já lá vão muitos anos... - tudo acaba por fazer sentido. Com o plus do digital video, e o toque arty do snuff movie, «Inland Empire» é talvez o filme mais completo do universo alternativo Lynch. Quem gosta vai adorar, quem não gosta ou quem não possui o background necessário, que se afaste deste filme. Não há aqui complacência. Ou seja, uma/duas histórias muito bem contadas, com as portas da percepção abertas e fechadas na nossa cara. Janelas, podemos e devemos abri-las, à nossa interpretação.

Os filmes de Lynch ficam connosco, deixam marcas. São Cinema. E marcam-nos para sempre, também por serem muitas vezes dolorosos, durante o acto do visionamento. A máscara de Laura Dern - ensaiada, ainda sem rugas de expressão, em «Blue Velvet» - colada ao ecrán, o furo provocado pela queimadura do cigarro na roupa interior, abrindo o «buraco branco» do filme, as câmaras que irrompem a realidade (ou será o contrário?), todos estes elementos nos hão-de perseguir durante muito tempo. E a trama? Tal como Lynch já desenvolvera em «Mulholland Drive», nesta continuação das Hollywood Series, a trama passa-nos pela cabeça e transforma-nos em personagens. E essa é a grande força do novo cinema de Lynch. *****

22.10.07



«Touching from Distance: Ian Curtis and Joy Division» Deborah Curtis 1995 (livro)

Livros escritos por ex-mulheres trocadas por outras? Tal como em «John», de Cynthia Lennon, também este livro nos dá a visão interior de alguém que viveu junto de uma estrela em ascensão. É sempre um ponto de vista parcial e às vezes amargo. Mas «Touching from Distance» - passado recentemente para o grande ecrán por Antony Corbijn - está muito bem escrito e tem uma particularidade: o visado, Ian Curtis, trocou afinal a mulher e a amante pela morte, assim como a carreira nos Joy Division, em vésperas de uma tour na América e um êxito à esquina.
Ian, ao que parece, não era pêra doce. Além de sofrer de epilepsia, mentia sem assumir intrigas ou a invenção de factos, vivia numa inépcia total em relação ao dia-a-dia, nunca assumiu a 100% a sua filha e o seu casamento, afastou de modo feio a sua mulher dos últimos tempos da sua vida, enfim... Com uma inrodução escrita pelo jornalista Jon Savage, este é um livro que da sua arte só tem a transcrição das letras que escrevia para os instrumentais que os seus colegas de banda criavam. Mas dá-nos uma versão minimamente fidedigna do sua vida «humana», que parecia tão desenquadrada por não caber no templo dos Deuses dos Joy Division.
Ian tinha ataques frequentes, às vezes durante as actuações, que eram vistos pelos fãs como encenações maiores que a vida das suas actuações ao vivo. Será por isso sensato conhecermos o outro lado daqueles cujas obras por vezes admiramos? ***

21.10.07



«An Ideal for Living» Joy Division 1978 (Vinil, Ep)

A única coisa que nos pode escapar - além das verdades universais de que os Joy Division foram das bandas mais sérias dos finais de 70, mantendo-se tão ou mais importantes até hoje - é como se tornou paradoxal a relação entre a imagética da banda e o modo como a sua obra tocou as pessoas. De música ainda incipiente, a finalizar um pós-punk derivado do eixo The Fall-Buzzcocks, a estética já era forte no Ep de estréia, em 1978, «An Ideal for Living». Poucos se poderiam gabar hoje de ostentar no arranjo gráfico dos seus discos e posters reproduções de propaganda da juventude Hitleriana - linha que seria seguida pelos New Order com o decalque de símbolos fascistas e futuristas italianos - ou mesmo apelidar a banda de «Joy Division»: nome dado ao grupo de prisioneiras mantidas vivas nos campos de concentração apenas para satisfazerem as necessidades sexuais dos soldados alemães... Mas eram outros tempos, talvez fossemos mais livres, quando o politicamente correcto ainda não misturava a arte com a política. Ian Curtis era um germanófilo assumido - foi a mulher que impediu que se casassem ao som de uma «variação» do hino alemão... - numa época em que chocar o mundo fazia parte da arte. Hoje, Bryan Ferry perde um dinheirão no mundo da moda por, numa entrevista, ter gabado o corte das fardas SS... A música exemplar, essa viria depois de «An Ideal for Living», mas estava assim iniciado um caminho Histórico que havia de ser curto para Curtis... ***


«Rebellion (Lies)» Arcade Fire. 2005 (video)

Ao rever o clip de «Rebellion(Lies)» não deixo de pensar que há dois modos de estar na música: o passivo e o activo. A militância Arcade Fire ainda é uma criança - embora os habituais detractores da cultura pop já o queiram desmobilizar ao difícil segundo álbum... - e o futuro o dirá, mas a necessidade de uma procura urgente de novas linguagens e novas/próximas estéticas de vida é algo que assola muitos dos artistas da cultura pop. E é de saudar. Ao invés de cristalizar uma opção profissional de vida numa determinada receita, há aqueles que no matter what querem sempre mais do menos, não condicionando a sua carreira à subjugação da vontade do público e da crítica. É ver o novo dia sempre a uma luz diferente, é por vezes bipolar e até esquizofrénico, mas é muito mais chama do que apenas entretenimento. E isso pode fazer com que se passem longas temporadas longe do senso comum ou da opinião do mais e menos próximo. Mas é esse percurso que interessa, esse autismo que a música popular deve preservar. A bem da insanidade, neste fascismo normalizativo que conta novamente com polícia secreta e presidentes do Conselho. Sim, a música popular pode ser muito mais do que apenas entretenimento, pode ser também um modo de vida subversivo e de eternidade. *****

19.10.07



«This is England» Shane Meadows 2006 (DVD)

Uma história simples - podia e pode ser verdadeira. A mais bela história do período em que a nova Inglaterra se descobria nas ruas, e a velha - a de Tatcher - combatia nas Falklands. A mais velha história de amizade, descoberta, sinceridade, morte e violência, ainda assim tão acutilante. 1983: uma sub-cultura emergente - com excelente música a condizer! - nos bairros e nas escolas, que, desviando-se dos seus caminhos iniciais - 1969 - começou a lidar mal com as novas situações sociais, derivantes do convívio com diferentes raças e culturas. Não é um filme que mostre só um dos lados da mesma moeda, e isso é o seu verdadeiro trunfo: arrisca-se a ser um valioso «documentário humano» sobre os despojos de guerra de uma sociedade à mercê de lideranças políticas, e consequentes efeitos colaterais afectivos. E essa será sempre uma história do presente e futuro, até à chegada da tão utópica utopia... *****

15.10.07

Magic & No Loss


«Magic» Bruce Springsteen 2007 (CD)

Há dias os Arcade Fire juntaram-se em palco ao Boss para «StateTrooper», seguido de «Keep the Car Runing», para suarem depois uma rendição final de «Born to Run». Já os The Killers também haviam emulado o espírito do antigo pioneiro americano que Springsteen popularizou. E em «Magic» é tudo isso e nada mais do que isso que está presente, novamente. Porque, novamente, é altura de sair dos pequenos clubes lotados e voltar aos estádios e festivais, festejar o épico no rock, apanhar sol de Inverrno e entranhar vitamina C, e sim, repetir a História. La-la-las contagiosos, I work for your love, dear, o sax de Clemons em alta a dialogar com a distorção das guitarras, arranjos Beach Boys in tempo, letras da América, refrões-refrões, pianos brancos, canções urgentes para grandes espaços abertos. Yes, it's going to be a long walk home... Como tantos outros do Boss, um Clássico. *****

11.10.07

lyricbytes



Bob Dylan in «Spirit on the Water», Modern Times. 2006

«Nunca mais posso voltar ao Paraíso / Matei um homem lá». *****

Ahoy!



«Shotter's Nation» Babyshambles 2007 (Cd)

A UNCUT deu 5 estrelas a este disco. Nenhuma publicação em Portugal o fará. Eu percebo porquê, Pete é um alvo fácil, e move-se num território estético com poucos amigos por cá: não é arty ou electrónico o suficiente, e o seu ar dandy e descosido insuportável para algumas cabecitas arrumadas. E Pete é um alvo fácil ao ponto de irracionalmente deixarmos de analisar a música pela música, e ouvirmos as suas canções com ouvidos cheios de preconceitos empolgados pelos media - as drogas, a Kate, a displicência... Mas inegável será dizer que Pete Doherty deu a volta por cima, ampliando os 3 ou 4 bons momentos do mui odiado «Albion», disco de estréia, para 7 ou 8. O produtor, Stephen Street (Smiths, Blur, Kaiser Chiefs...), deverá ser um dos culpados, pois a sua assinatura audio cheira-se a milhas e está aqui bem presente. Onde «Albion» era baço e macilento, «Shotter´s Nation» é brilhante e prometedor, como se se tratasse de um disco de pós-rehab - se bem que isso não corresponda à verdade... «Delivery« é finalmente um single com S e os soundbytes dos Libertines aparecem aqui e ali, como se estivessem à espera de eco em retorno, a qualquer momento, de um qualquer Waterloo... ****

10.10.07

Anti-Neura Já!



«Northern Soul Essencial Floorfillers» CDX3

Agradeço aos Radiohead a 1º parte do concerto dos James, no Pavilhão dos Belenenses, há muitos anos atrás, agradeço os clássicos «The Bends» e «OK Computer», agradeço muitíssimo o empurrão que In Rainbows deram à Indústria discográfica mundial, ela que já se encontrava debruçada sobre a cova. Mas não agradeço o disco que desde «Kid A» repetem com doses consideráveis de neura sob a voz Thom Yorkada de artista torturado. E , por isso, em plena semana de lançamento digital e aclamação popular de «In Rainbows», troco isso tudo pela celebração suada na pista de dança imaginária que o som da Northern Soul sugere: 3 Cds com os mais refinados clássicos do género, de Billy Preston a Terry Callier, do «I Spy for the FBI» até ao «The Bottle». Sim, oiço isto todas as manhãs no duche. E vou ouvir até pelo menos até passar a febre macaca Radiohead que vai assolar o burgo. E mais, vou dançar até e durante as noites dos 2ºs Sábados do mês, ali pelo Scandy Bar... *****

9.10.07

Forte Sol de Outono


«Into The Wild» OST - Eddie Vedder. 2007


O disco a solo de Eddie Vedder, «embora» seja uma banda sonora, é um dos novos discos mais consistentes deste mês. Abrindo em força Pearl Jam com «Setting Forth» - retomada depois em «Far Behind» e no single «Hard Sun» - é contudo um disco mais calmo e acústico que os das banda-mãe, não perdendo no entanto nenhuma da intensidade e pujança que lhes é habitual. Belos temas como «Societyt» e «Guaranteed», que fecham o disco, e outros como o banjo «Rise» e «Long Nights», tornam «Into The Wild» como um dos discos de classic rock mais audíveis da temporada. E fiquem para ouvir até ao fim do fim...****



«Shady Streets» - Gary Stewart. in «Gary» Lp 1979 (mp3)

Há tempos que procurava saber qual a canção que serve e banda-sonora àquele terno ménage à trois que encerra o filme «Ken Park», de Larry Clark. Através do site de Harmony Korine acabei por identificar o tema em questão: «Shady Streets», que pertence a mais um génio incompreendido pelo álcool e desaparecido da música Country - Gary Stewart. Outro tema para estar em modo repeat no Ipod neste princípio de Outono@USA. *****

8.10.07

Dylanesque


«Self Portrait» - Bob Dylan. 1970

"That album was put out because...at the time...I didn't like the attention I was getting. I [have] never been a person that wanted attention. And at that time I was getting the wrong kind of attention, for doing things I'd never done. So we released this album to get people off my back. They would not like me any more. That's...the reason the album was put out, so people would just at that time stop buying my records...and they did." Bob Dylan 1981.

Mais uma caixa Dylan que invade o mercado, numa adulação genérica e cada vez mais consensual sobre o génio daquele que será, porventura, o artista mais interessante de sempre da música popular. Regressar a «Self Portrait», em vez de mergulhar na nova caixa tripla é um exercício que não será para todos, a não ser fãs e estudiosos. Mas sempre gostei de passos de auto-indulgência nas carreiras dos verdadeiros artistas, e por isso troquei a bonita caixa por este «Auto-retrato», pintado por si - atente-se a ironia...

Com temas gravados por «dá cá aquela palha» e outros vindos da fase «nova voz» de «Nashville Skyline», misturados com alguns diamantes em bruto e temas ao vivo(?), «Self Portrait» é o disco que Dylan gravou em Woodstock, onde se havia fixado, para fugir ao monstro que (lhe) haviam criado. É preciso por isso - atenção! - ouvir este disco com muito mais do que simples ouvidos para o podermos enquadrar: é que até as palmas que se ouvem nas intro e outro das faixas live do espectáculo da Ilha de Wight nos parecem falsas, postas em estúdio...

Não esperemos encontrar aqui nada tão refinado quanto a obra-prima «Blood on the Tracks». Não esperemos encontrar aqui a verdade folk da primeira fase da carreira de Dylan. Aliás, não esperemos encontrar aqui nada de mais. Apenas Dylan, a destruir e reconstruir, a ousar e a afastar. Um passo que tinha mesmo que ser dado, como se provou mais tarde. É por isso que Dylan é único. E grande.

****

4.10.07

Voltando ao Fim




«The Last Waltz» The Band DVD realiz: Martin Scorsese - 1978

Esperei mais de 25 anos para rever este filme. Vi-o em 79, quando musicalmente acompanhava o começo da linha iniciado pelo Punk e pela New Wave, já com o revival Mod em alta e o Ska à solta. Este filme era o concerto final de uma banda americana, a banda que a espaços acompanhara Bob Dylan. Aos 13 anos era difícil apreciar esse fim de caminho, com tanto de novo a despontar. Lembro-me que gostei de partes do filme, e que outras me pareceram enfadonhas...

Poucas vezes terá sido um concerto de rock filmado desta maneira - ou não fosse Scorsese! Um concerto de despedida em jeito de celebração e não saudade, com um luxuoso naipe de convidados. E hoje, quando já se sabe a história toda, é mais fácil apreciar devidamente um clássico cheio de momentos empolgantes. Momentos empolgantes como os da actuação de alguns dos convidados dos The Band: Neil Diamond em «Dry Your Eyes», Muddy Waters em «Mannish Boy», The Staples em «The Weight», Van Morrison em «Caravan» e Dylan & All em «I Shall Be Released», mas também momentos por conta própria, como o hino «The Night They Drove Old Dixie Down», tudo momentos de ouro na história da música popular, cruzados com real talk sobre a vida da banda. E como pioneiramente nos diz o primeiro frame de «Last Waltz», THIS FILM SHOULD BE PLAYED LOUD! A não perder. *****

Nota: Aconselho o visionamento com as legendas em inglês: passa por aqui a Bíblia dos conteúdos liricos de que se serve hoje aquilo a que se convencionou chamar de Americana - exemplar em «Coyote», com Joni Mitchel.

2.10.07

I WANT CANDY


Fire Horse



THE BESNARD LAKES - Are The Dark Horse (vinil) 2007

«Disaster» é uma das melhores aberturas de disco dos últimos tempos: misturem - na trituradora - os Beach Boys com os Godspeed You Black Emperor, ambos a Xanax, e deixem-se levar no fogo lento deste colectivo feito de pó de estrelas dos citados GYBE, The Dears e Stars, sediado em Montreal. «Devastation» é um nome bem escolhido para a 4ª faixa, quando já estamos completamente rendidos. Resta dizer que nesta edição em vinil a capa ganha vida, incinerando qualquer reles cópia de formato reduzido e plastificado. ****

30.9.07

Primavera no Outono



JACK PENATE - Matinee (digital) 2007
As Estações do ano já não são o que eram, já toda a gente notou isso. De modo que na música já não faz sentido em falar em música de Estação, a não ser aquela que versa a tradição Natalícia. E é por isso que sabe tão bem escutar nesta entrada de Outono o Primaveril disco de estreia de Jack Penate, «Matinee». É misturar o melhor da sensibilidade pop dos Orange Juice com os corridinhos dos Housemartins - ouvidé «Second, Minute or Hour» - e algumas das mais simples e belas baladas não melosas que a pop pode oferecer, como o clássico «Learning Lines» e um dos b-sides de «Spit at Stars», também aqui incluido, «My Ivonne». ****



THE RUMBLE STRIPS - Girls and Weather (digital) 2007
Com estes senhores da ponta mais Oeste do Reino Unido, o meu primeiro contacto foi um autocolante redondo com um bombo enorme que me foi oferecido em Londres, e o qual colei na guitarra, sem saber nada deles. Meses mais tarde comecei a ouvi-los - aquela voz e animação ligeiramente esganiçada herdada de um Kevin Rowland, os metais a substituirem as guitarras eléctricas - e apaixonei-me pelo seu disco. A diferença e a animação de que a pop precisava, alegria de intensidade mais ligeira do que aquilo que nos últimos tempos musicais tem sido oferecido aos ouvintes... ****

13.9.07

Let's dance to Joy Division

and celebrate the irony everything is going wrong but we're so happy.
A pop inglesa a fazer o que faz de melhor, a comer-se a si própria. The Wombats nice.

nice