
«Garage» Lenny Abrahamson 2007 (filme)
SONS - IMAGENS - LETRAS



Um drama nas alturas, perto da loucura face à culpa de um passado que não se pode alterar, embora se alimente essa ilusão em desespero. Filmado nos Alpes, a história de um homem de quem a mulher fugiu, deixando-o com uma filha de 5 anos. 13 anos depois, a difícil relação de um pai com a filha a entrar na idade adulta, e o doloroso convívio com uma vida que ficou muito aquém daquela com que se sonhou. O que acontece à grande maioria da população humana, só que felizmente também a grande maioria aprende a lidar com isso de melhor forma... ***








«Inland Empire» David Lynch 2006 (DVD)
3 horas de filme, as «últimas» duas as mais impenetráveis. Mas em círculo - para quem já descodifica os tricks de Lynch, e já lá vão muitos anos... - tudo acaba por fazer sentido. Com o plus do digital video, e o toque arty do snuff movie, «Inland Empire» é talvez o filme mais completo do universo alternativo Lynch. Quem gosta vai adorar, quem não gosta ou quem não possui o background necessário, que se afaste deste filme. Não há aqui complacência. Ou seja, uma/duas histórias muito bem contadas, com as portas da percepção abertas e fechadas na nossa cara. Janelas, podemos e devemos abri-las, à nossa interpretação.
Os filmes de Lynch ficam connosco, deixam marcas. São Cinema. E marcam-nos para sempre, também por serem muitas vezes dolorosos, durante o acto do visionamento. A máscara de Laura Dern - ensaiada, ainda sem rugas de expressão, em «Blue Velvet» - colada ao ecrán, o furo provocado pela queimadura do cigarro na roupa interior, abrindo o «buraco branco» do filme, as câmaras que irrompem a realidade (ou será o contrário?), todos estes elementos nos hão-de perseguir durante muito tempo. E a trama? Tal como Lynch já desenvolvera em «Mulholland Drive», nesta continuação das Hollywood Series, a trama passa-nos pela cabeça e transforma-nos em personagens. E essa é a grande força do novo cinema de Lynch. *****






«Northern Soul Essencial Floorfillers» CDX3
Agradeço aos Radiohead a 1º parte do concerto dos James, no Pavilhão dos Belenenses, há muitos anos atrás, agradeço os clássicos «The Bends» e «OK Computer», agradeço muitíssimo o empurrão que In Rainbows deram à Indústria discográfica mundial, ela que já se encontrava debruçada sobre a cova. Mas não agradeço o disco que desde «Kid A» repetem com doses consideráveis de neura sob a voz Thom Yorkada de artista torturado. E , por isso, em plena semana de lançamento digital e aclamação popular de «In Rainbows», troco isso tudo pela celebração suada na pista de dança imaginária que o som da Northern Soul sugere: 3 Cds com os mais refinados clássicos do género, de Billy Preston a Terry Callier, do «I Spy for the FBI» até ao «The Bottle». Sim, oiço isto todas as manhãs no duche. E vou ouvir até pelo menos até passar a febre macaca Radiohead que vai assolar o burgo. E mais, vou dançar até e durante as noites dos 2ºs Sábados do mês, ali pelo Scandy Bar... *****

O disco a solo de Eddie Vedder, «embora» seja uma banda sonora, é um dos novos discos mais consistentes deste mês. Abrindo em força Pearl Jam com «Setting Forth» - retomada depois em «Far Behind» e no single «Hard Sun» - é contudo um disco mais calmo e acústico que os das banda-mãe, não perdendo no entanto nenhuma da intensidade e pujança que lhes é habitual. Belos temas como «Societyt» e «Guaranteed», que fecham o disco, e outros como o banjo «Rise» e «Long Nights», tornam «Into The Wild» como um dos discos de classic rock mais audíveis da temporada. E fiquem para ouvir até ao fim do fim...****

«Shady Streets» - Gary Stewart. in «Gary» Lp 1979 (mp3)
Há tempos que procurava saber qual a canção que serve e banda-sonora àquele terno ménage à trois que encerra o filme «Ken Park», de Larry Clark. Através do site de Harmony Korine acabei por identificar o tema em questão: «Shady Streets», que pertence a mais um génio incompreendido pelo álcool e desaparecido da música Country - Gary Stewart. Outro tema para estar em modo repeat no Ipod neste princípio de Outono@USA. *****
«Self Portrait» - Bob Dylan. 1970
"That album was put out because...at the time...I didn't like the attention I was getting. I [have] never been a person that wanted attention. And at that time I was getting the wrong kind of attention, for doing things I'd never done. So we released this album to get people off my back. They would not like me any more. That's...the reason the album was put out, so people would just at that time stop buying my records...and they did." Bob Dylan 1981.
Mais uma caixa Dylan que invade o mercado, numa adulação genérica e cada vez mais consensual sobre o génio daquele que será, porventura, o artista mais interessante de sempre da música popular. Regressar a «Self Portrait», em vez de mergulhar na nova caixa tripla é um exercício que não será para todos, a não ser fãs e estudiosos. Mas sempre gostei de passos de auto-indulgência nas carreiras dos verdadeiros artistas, e por isso troquei a bonita caixa por este «Auto-retrato», pintado por si - atente-se a ironia...
Com temas gravados por «dá cá aquela palha» e outros vindos da fase «nova voz» de «Nashville Skyline», misturados com alguns diamantes em bruto e temas ao vivo(?), «Self Portrait» é o disco que Dylan gravou em Woodstock, onde se havia fixado, para fugir ao monstro que (lhe) haviam criado. É preciso por isso - atenção! - ouvir este disco com muito mais do que simples ouvidos para o podermos enquadrar: é que até as palmas que se ouvem nas intro e outro das faixas live do espectáculo da Ilha de Wight nos parecem falsas, postas em estúdio...
Não esperemos encontrar aqui nada tão refinado quanto a obra-prima «Blood on the Tracks». Não esperemos encontrar aqui a verdade folk da primeira fase da carreira de Dylan. Aliás, não esperemos encontrar aqui nada de mais. Apenas Dylan, a destruir e reconstruir, a ousar e a afastar. Um passo que tinha mesmo que ser dado, como se provou mais tarde. É por isso que Dylan é único. E grande.
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THE BESNARD LAKES - Are The Dark Horse (vinil) 2007
«Disaster» é uma das melhores aberturas de disco dos últimos tempos: misturem - na trituradora - os Beach Boys com os Godspeed You Black Emperor, ambos a Xanax, e deixem-se levar no fogo lento deste colectivo feito de pó de estrelas dos citados GYBE, The Dears e Stars, sediado em Montreal. «Devastation» é um nome bem escolhido para a 4ª faixa, quando já estamos completamente rendidos. Resta dizer que nesta edição em vinil a capa ganha vida, incinerando qualquer reles cópia de formato reduzido e plastificado. ****