1.4.08

U23D Vs. Rattle & Hum
















«U23D» Catherine Owens 2008 (filme) «Rattle and Hum» Phil Joanou 1988 (filme)


Se bem que o mais recente seja «apenas» um concerto dos U2 na Argentina e o mais antigo um documentário sobre os U2 na América, há algo que os pode relacionar: o modo como o todo do grupo é apresentado ao público, no grande ecrán, e em épocas distintas. Aquando da saída do documentário «Rattle and Hum», estreado no antigo cinema Condes - hoje Hard Rock café, em Lisboa - o fãs acorreram em massa levando t-shirts e bandeiras que empunhavam cantando, a espaços. A crítica começava a torcer o nariz ao sonho americano de Bono e Cia. e era politicamente incorrecto gostar da banda - só os recuperariam depois da fase Berlinesca de «Achtung Baby». No ecrán, os U2 eram filmados maioritariamente a preto e branco na América dos irlandeses, em momentos gospel de igreja onde se ensaiava «I still haven't found...», em Graceland, nos Sun studios a gravar «Angel of Harlem», em explosões de raiva em palco - «Bullet the Blue Sky» e «Silver and Gold» - e em duetos lendários com B.B.King e concertos em terraços de fazer parar o trânsito. Ainda hoje, se calhar até muito mais hoje, «Rattle and Hum» é um documento intemporal, vibrante e desafiador, que começa com a apropriação do «Helter Skelter» de Beatles e Manson, e deambula pela redescoberta da música tradicional como caminho a seguir (nada que Dylan não tivesse já feito) mas também pelo humor dos U2. Em «U23D» a única réstea de humor é um beijo na boca de Bono a Adam, que falha por se querer levar a sério... Ainda hoje vemos «R&H» com um sorriso constante, enquanto «U23D» leva ao bocejo. Vemos em 3 dimensões um espectáculo morno, que aborrece devido à pouco diversificada realização e montagem, que parecem esgotar todas as novidades da tecnologia 3D em 3 canções. Vemos em 3 dimensões um Bono de voz cansada, uma banda com bom som mas pouca garra. Não vemos a dimensão da atitude artística que junto com a vox política caracterizou as fases mais importantes da carreira do grupo. E não são a tecnologia e a novidade que vão colmatar essa insuficiência. Na realidade, o preto e branco de «Rattle and Hum» é muito mais sobredimensional e «colorido» do que o truque dos óculos 3D. O showbusiness tem destas coisas...
«U23D» *** «Rattle and Hum»*****

28.3.08


«Cease to Begin» Band of Horses 2007 (Vinil)

Além das barbas, de uma voz que por vezes remete para os The Shins, e um conceito de vida para além da Americana, este disco está cheio de canções. Pairantes, como «The General Specific»,  explosivas, como o introdutório «Is There a Ghost», circulares, como «No One's Gonna Love You», Beach Boyesques como «Lamb of the Lam (In the City)». Em suma, um disco feliz! ****

«Pistol Dreams» The Tallest Man on Earth 2007 (Cd)

Esta brilhante revelação é a prova provada de que a arte não depende da geografia: chega-nos da Escandinávia e é o primeiro disco à altura das gravações live de Dylan em NY, por alturas das actuações no Gaslight, nos inícios de 1960 e ainda antes de obter contrato de gravação. Se na primeira impressão apontamos logo essa colagem, é na sua derivação que este disco ganha força, na sua voz anasalada e strumming banjo de guitarra acústica, que se, obviamente, remetem para quem de direito, emancipam um sueco mais folk do que muitos autênticos locais. Uma das revelações do ano, a provar, mais uma vez, que os estilos musicais são globalizadamente de todos em qualquer parte e em qualquer época. Não é a «parte» que interessa, antes a arte. *****

«Brighter than Creation's Dark» Drive-By Truckers 2008 (2xVinil))
 
Ao 7º disco de originais, os Drive-By Truckers atingem o estado de graça. Numa combinação perfeita de letras e imaginário Americana, em 19 canções este disco vai mais longe do que qualquer outro da sua discografia prévia. Títulos como «Two daughters and a beautiful wife» e letras como «Daddy needs a drink to deal with all the beauty/ to deal with all the madness/ to keep from blowing up/Daddy needs a drink/ to calm down his badness/ to execute his gladness(...) Daddy needs a drink/ so Mum fix one quick» são imagens perfeitas para a banda sonora de uma geração pós 30 anos que enfrenta pela primeira vez um cenário familiar adulto e tenta lidar com ele, em vez de procurar na adolescência perdida os ups and downs do seu dia-a-dia. Temas como «The Righteus Path» devem fazer sorrir Bruce Springsteen, assim como «I'm Sorry Houston»  e «The Purgatory Line» devem captar, ao mesmo tempo, a atenção de Joni Mitchell e das Dixie Chicks! E isso é meritório demais para ser ignorado. *****

21.3.08


«Zeitgeist» Peter Joseph 2007 (DVD/online)

O espírito dos tempos: «The greatest story ever told», «All the world is a stage», «Don't mind the man behind the curtain». Estas são as 3 partes do polémico documentário, respectivamente dedicadas à religião, ao 9/11, e à Banca Mundial, mais especialmente à Banca privada Americana, conhecida como a Reserva Federal. O filme foi estreado mundialmente no dia 15 de Março, em mais de 70 países e visto por quase 100 mil pessoas. Foi estreado com base numa rede de contactos online onde muitas pessoas se propuseram, gratuitamente, a dar eco a este documentário assinado pelo anónimo Peter Joseph e a fazer passar a mensagem. O que distingue afinal «Zeitgeist» de outros filmes sobre teorias da conspiração? Para já, a exactidão dos factos, e depois uma certa abordagem «arty» e filosóficamente militante do conceito de documentário. Durante um dos visionamentos em Portugal, e devido à natureza sócio-religiosa do país, a 1ª parte, onde se afirma que Jesus Cristo nunca existiu, foi aquela que mais curiosidade despertou entre o público. Rendidos aos elementos da História, muitos crentes abandonaram a sala com dúvidas. E ter dúvidas é aceitar o conhecimento.*****

20.3.08

Palavras para Quê


«Pistol Dreams» The Tallest Man On Earth 2007 (Cd) *****
(texto proxs. dias)


«Brighter Than Creation's Dark» Drive-By Truckers 2008 (Cd) *****
(texto proxs. dias)



«3» Portishead 2008 (Cd) ***


«Accelerate» R.E.M. 2008 (Cd) ***

5.3.08

Z DAY 15 MARÇO




Outros locais de exibição em Portugal:

University of Minho
Campus Azurem, Guimaraes, Braga
TIME: 21:00

Zeitgeist - A Luz e a Sombra
Palmela, Setubal

Centro Multimeios de Espinho
Av. 24 nº800, Espinho, Aveiro
TIME: 14:00 & 19:00

Zeitgeist Exhibition at Mercado Negro
rua da amizade, 4 - 2º esq. Esgueira
3800-381 AVEIRO
PORTUGAL TIME: 22:00

Livraria Almedina Estádio
Coimbra
TIME: 15:15

23.2.08


«Coffee Helps» The Vicious Five 2008 (single)

Antecipando o muito aguardado «Sounds Like Trouble», com saída marcada para 10 de Março, o single «Coffee Helps», disponível no MySpace da banda, é uma agradável expectativa confirmada. Joaquim canta finalmente uma oitava abaixo, a estrutura de canção aperfeiçoou-se, o som apurou-se, e mesmo perigosamente perto do mainstream rock, os Vicious Five apresentam um dos hinos desta Estação e da próxima. Imparáveis. *****

20.2.08



«Sweetheart of the Rodeo» The Byrds 1968 (vinil)

Se nos anos 70 o termo Country-Rock era perfeitamente usual, no final dos anos 60 a Country e o Rock andavam em territórios diametralmente opostos. De um lado os rednecks que frequentavam o Grand Ole Opry, doutro os cabeludos pré-hippies. Mas as coisas estavam a mudar: Dylan tinha ido do Folk ao eléctrico e agora virava-se para o Country, gravando em Nashville com Johnny Cash, e os Byrds, à mão de Gram Parsons, tentavam semelhante «jogada». Claro que «Sweetheart...» tornar-se-ia no disco maldito do grupo, não entendido nem a jusante nem a montante. As próprias críticas da imprensa musical marginalizaram os Byrds, tão confundidos quanto os fãs hardcore da Country music. É por isso «perfeitamente normal» que hoje «Sweetheart...» se tenha tornado na peça de culto da carreira dos Byrds, porventura um dos seus discos mais interessantes, com Gram Parsons em estado de graça, gravando um dos seus melhores temas, «Hickory Wind», espalhando a conversão Country que terá estado nas origens da sigla Americana. No entanto, o disco marcaria também o desigual futuro dos Byrds, desagregando Parsons da banda e criando um hiato que levou também à saida de Chris Hilmann para os Flying Burrito Brothers, deixando Roger McGuinn como único timoneiro. Por isso tudo, *****, claro.

19.2.08


«Beloved - Mojo presents a treasury of classic indie rock» 2008 (Cd)

Vem colado na capa da Mojo de Março, e é uma colectânea organizada pela revista Mojo sobre os dourados anos indie. Estamos a falar da primeira metade dos anos 80, quando umas guitarras semi-tonadas, aliadas a uma frescura pop inquestionável, inventaram o termo «indie». Nessa génese estão grupos como os Felt, The Sound, The House of Love, Wah! Heat, The Orange Juice, The Gist, The Teardrop Explodes, entre outros. Ainda hoje estes sons soam mais frescos que nunca, e eram a verdadeira alternativa ao período neo-romântico, plástico e pós-moderno, a usar e abusar das novas tecnologias aliadas aos instrumentos musicais e ao novo equipamento de estúdio. Aqui, não. «Apenas» melodias imbatíveis da pop, leveza e intensidade na medida certa, em suma, o melhor que nos podem oferecer, nestes termos. Para quem conhece, indispensável, para quem não conhece, também. *****

14.2.08


«Urban Verbs» Urban Verbs 1980 (vinil)

Não fora o caso do cantor dos Urban Verbs, Roddy Frantz, mimetizar lirica e declamadamente um jovem David Byrne - ainda por mais sendo irmão do baterista dos Talking Heads! - e os Urban Verbs poderiam ter-se estreado como verdadeiramente originais. Mas, na História da pop, a régua evolucionista não perdoa e os Verbs sucumbiram ao segundo disco...
Mas apesar disso o seu disco de estréia é ainda hoje um clássico da era: urbano depressivo nas letras e na cadência ritmíca e harmónica, contém verdadeiras pérolas desde a faixa de abertura, o «clássico» «Subways»(Every morning I go under the city/Handful of change takes me away from it all/I leave my problems up on the street/And ride the subway where it's always warm) até à faixa que encerra o lado b, o incontornável «The Good Life»(That's the good life/It's L.A.). «Luca Basi», «Tina Grey» e «The Angry Young Men» revelavam uns Heads mais zangados e obsessivos que os originais, ainda que em busca de uma beleza redentora em «The Next Question»(I'm faced with the next question/Is this love or just a feeling/Sensations, infinite sensations/The next time should supply the answer/If this is love/I was born a survivor). *****

3.2.08


«In Rainbows» Radiohead 2008 (vinil)

Não se falou tanto da música em «In Rainbows» como se falou de todo o processo revolucionário da sua e-dição. Mas agora que a tempestade já passou, a música do último disco dos Radiohead vem ao de cima. E vem bem.
«In Rainbows» é para mim o melhor disco do grupo desde «Ok Computer», embora abra com 2 b-sides, que afastados logo ao princípio acabam, insolitamente, por não o desiquilibrar. A grande abertura é assim deixada a «Nude», um dos momentos altos do disco. Simplesmente belo e maravilhoso, o que nunca se podia ter afirmado de outro qualquer momento de «Hail to the Thief», «Amnesiac» ou «Kid A», os irmão feios de «In Rainbows», ou até do auto-miserabilismo - para o qual já não há pachorra nenhuma! - do solo de Thom. Porque é neste disco que os Radiohead conseguem o equilibrio entre o experimentalismo pop minimal e a beleza orquestrada por acidente consciente de uma mente a deixar-se ir com um belo groove de fundo. Começa em «Nude» e todas as canções - sim, canções! - que se lhe seguem são essenciais, não valendo a pena destacar nenhuma - usemo-las no tempo conforme as nossas disposições ou concentrações. «In Rainbows» não é apenas Bom, como por cá muitos dos críticos habituais o classificam, agora que perdem as regalias de uma primeira audição e deixam de ser os mensageiros. «In Rainbows» é muito bom, pequeno apenas devido às duas faixas iniciais que deveriam ter sido incineradas pela capa. *****

18.1.08



«Atonement»
Joe Wright 2007 (filme)

Haverá sempre lugar, no cinema contemporâneo, para uma história assim: algo que envolva romances impossíveis, injustiças fatais, uma casa idílica no campo, um drama enorme, e se possível com uma das guerras mundiais pelo meio - isto se for na Europa, na América é normalmente a guerra da Sucessão. Mas o modelo clássico funciona, e com a boa interpretação dos actores (os minutos finais de Vanessa Redgrave são brilhantes e decisivos para o bom desempenho do filme) e a notável fotografia de Seamus McGarvey, ficamos na presença disso mesmo, de um clássico. Intenso, tal como o best-seller de Ian McEwan, já com 2 Globos de Ouro no currículo (melhor filme/drama e melhor banda sonora), e os Óscares mesmo ali à esquina, por trás do plantão de greve dos guionistas norte-americanos.
Ficará para a História do cinema o plano one shot das tropas inglesas sitiadas na Costa francesa, onde a deambulação do protagonista e de dois companheiros nos leva a sentir o ambiente e o local de modo único e arrebatador. Um momento para ver, de preferência, em écran grande. *****

2.1.08



«Upon The Heath» Mr.Hudson & The Library 2007 (e-single)

Passaram discretamente por Glastonbury, em 2007, e são o segredo mais bem guardado da nova pop britânica. Quarto single extraído do disco de estréia, «Upon The Heath» - que o encerra - resume em poucos minutos o som de Mr. Hudson: composição clássica despida em beats, acompanhada ao baixo com nova poesia dandy. Têm carisma, têm personna, têm canções, e o que é que se pode pedir mais? Que se embarque na frase de desordem que acaba com o tema, «I suggest: No More Rock'n'Roll!»? Pelo menos que se esteja atento a esta nova espiral da pop, e que se a abraçe se dela não restar dúvida. *****

31.12.07


"Fool For You Anyway" Foreigner 1977 (mp3)

Nos últimos tempos, as séries americanas que nos têm chegado via Fox, apresentam bandas sonoras dignas de renome, i.e., dignas de filmes, tal tem sido o cuidado aumentado que as produtoras investem neste tipo de produtos. «October Road», série guardada na gaveta até uma altura em que não havia mais nada a apresentar, é um desses casos. Exemplarmente escolhidos, ao sabor do guião, os temas que ilustram cada momento mais ou menos dramático destas histórias acabam por constituir parte activa do imaginário de cada uma delas, colados não a cuspo mas com cimento bem misturado. «October Road» serve-se daquela que foi a corrente musical maldita do fim dos anos 70 e anos 80, o Fm americano, para criar autênticas pérolas de fusão imagem/som: parece que as canções foram propositadamente escritas para as cenas, também devido ao facto de algumas décadas de música popular poderem provi-las com declarado ajuste. É o caso de «Fool For You Anyway», tema incluído no disco de estréia dos Foreigner, na altura ainda longe da globalização mainstream de «I Want To Know What Love Is». E o tempo faz com que possamos apreciar estas canções à distância, e não renegá-las à primeira como o fizemos no passado. Perdão, não só o tempo, mas também e especialmente esta colagem que as reposiciona e situa num território completamente novo. ****

24.12.07



«Spiritz» Deadboy 2007 (Cd)


É o álbum nacional mais entusiasmante do ano, embora tenha ficado curiosamente fora das listas da época, cada vez mais inúteis por reflectirem o gosto mediano daquilo que maior exposição mediática consegue. «Spiritz» é «apenas»o novo velho rock´n´roll em chamas, onde as guitarras dão lugar à electro-tónica, e os espíritos paralelos de Vega, Pop, Bators e Murphy são convocados. É notoriamente uma edição DIY, e sauda-se o facto. O futuro prossegue assim. E bem. ****

8.12.07



«The Beatles - The Biography»
Bob Spitz 2007 (livro)

Contando com as notas, são cerca 900 páginas de História, uma Bíblia da Música Popular para alguns - muitos! Bob Spitz edita a mais completa e detalhada biografia do grupo e dos mais próximos. Com base em documentos e depoimentos de toda a espécie, Spitz demorou 7 anos a compilar, escrever, seleccionar e editar este magnífico livro, o que valeu bem a pena!
Nesta biografia os Beatles não são tidos como deuses, e grande parte do seu lado mais negro e humano - antes dissimulado noutras obras - é aqui exposto, cabendo ao leitor «escolher» a sua versão de quem teve a culpa do pior e de quem foi responsável pelo melhor. Começando pelo princípio dos princípios - origens familiares e primeiros anos de vida - e acabando no primeiro dos fins - a atribulada saída do 1º disco a solo de McCartney, antes de «Let it Be» - este livro leva-nos na viagem por vezes psicadélica que foi a vida d'»Os Quatro Cabeleiras do Após-Calypso» - 1º título em Portugal para o filme «A Hard Day's Night»(!) - e por vezes desejamos que essa viagem não acabe, tal é a riqueza e o pormenor com que os factos são contados. Lennon é sempre o anjo negro desta história, sendo esse afinal o seu grande valor como artista insatisfeito - e não como homem - e McCartney tem por vezes no seu lado pior o seu lado melhor, no intuito de preservar e desenvolver essa autêntica instituição anárquica em que os Beatles se tornaram. Era uma banda de ténues equilíbrios, desde o princípio, e a dupla Lennon/McCartney tornou-se rapidamente uma dupla de intenções de copyright e não o modo real como funcionavam em termos de criatividade. Mas tudo valeu a pena, como este livro, afinal, nos esclarece. Em menos de 10 anos, os Beatles eram os primeiros a escrever a nova história da música popular, e a desempenhar esse pioneirismo com distinção. Abriram caminhos, expandiram mentes, e deram a jovens e menos jovens uma oportunidade de alienação que ainda hoje é única e vanguardista. E pode ser que daqui a 10 anos Spitz edite The Beatles after The Beatles, com a mesma emoção e entrega...

7.12.07



«Sicko» Michael Moore 2007 (filme)

É o melhor trabalho de Moore. Moore põe em jogo o modo privado em que funciona o sistema de saúde nos E.U.A., confrontando-o com o sistema Europeu - e não só - como alguém que sai da sua concha e descobre um mundo novo à sua volta. Tudo é novo para Moore fora do seu país: o modo como a democracia europeia construiu, há décadas, o seu Sistema Nacional de Saúde, ou mesmo como os eternos resistentes Cuba e Canadá defendem a sua «independência». E se para Moore, americano, tudo é uma espantosa revelação - no modo como doentes, médicos e cidadãos são tratados por um sistema que no seu país é tido como Socialista(!) - para nós, europeus, é também uma revelação espantosa o facto dos americanos viverem há tanto tempo - por culpa inicial de Nixon - num sistema em que as Seguradoras e as empresas de medicamentos controlam o Congresso e enriquecem à custa de lucro obtido pelas recusas de tratamentos a quem deles precisa. Desejamos que todos os americanos vejam este filme e exijam a mudança - porventura a Hillary Clinton, vejam o filme e percebam porquê - e desejamos que todos nós, europeus, apesar de tantas falhas do sistema - especialmente por cá! - o continuemos a manter e aperfeiçoar. *****

6.12.07



«Toothpaste Kisses» The Maccabees 2007 (video)

Um take, um video, um beijo multiplicado. Como uma boa idéia faz um bom video, sem orçamentos por aí além. Retirado do seu disco de estréia - um dos melhores do ano! - «Toothpaste Kisses» é uma calma banda sonora para a importância das imagens. Não há aqui nenhuma mensagem directa, tipo «vamos todos beijar-nos uns aos outros!», mas a beleza pairante de tal plano prolongado enleva-nos de modo singular e deixa-nos a alma mais leve. Algo a realçar: como este video é extremamente importante para a presença da canção nos media. Duvido que «Toothpaste Kisses» se considerasse um single comercial sem o acompanhamento destas imagens... ****


5.12.07



«American Gangster» Ridley Scott 2007 (filme)

Uma espécie de black Scarface, mas com o tom épico que Scott tão bem sabe impôr aos seus filmes. Bela fotografia, câmaras lentas que fazem com que esta história passada nos finais dos anos 60, e inícios dos 70, às vezes pareça mais uma história ocorrida num futuro há muito tempo atrás.
Russel Crowe encarna na perfeição o papel do polícia mais honesto do mundo, sendo que a Denzel Washington falta no entanto um pouco de peso na composição da personagem para que este Padrinho compita com outros da História do cinema.
Com 2h30m de duração, uma história bem contada no seu princípio, meio e fim, numa notável recriação da época. Sim, vale a pena ver. ****


2.12.07



«Conta-me Como Foi» Fernando Ávila RTP 1 (série)


É talvez a melhor série de sempre de produção nacional, no campo da ficção. Porquê? Pelo modo fidedigno como a época é recriada e pelo bom gosto posto nessa recriação. Pelos actores, pelas histórias não-lamechas, pela análise não-básica dos tempos políticos que se viviam. Também pela parte técnica: fotografia, montagem, cenários, guarda roupa, caracterização...

A solução da voz-off adulta, da personagem então mais nova da família, resulta em pleno, enquadrando na perfeição o lado mais naive da série - o da descoberta de um país, das coisas do amor, do inocente questionar de uma realidade que pouco se estendia dos limites do bairro em que cada um vivia. E apesar de o conceito ser baseado na série espanhola «Cuéntame como passó», a realidade particular portuguesa dota a série de uma singulariedade que a afasta dos produtos televisivos empacotados que nos servem diariamente.

Afinal é possível: esqueçam-se os vários falhanços em séries de recriação histórica, esqueçam-se muitos dos programas que o canal público exibe regularmente... «Conta-me como foi» é um primeiro passo, a ser acarinhado e a ser continuado nos próximos projectos nacionais extra-novelas a verem a luz do ecrán. Além dos excelentes Rita Blanco, Catarina Avelar e Miguel Guilherme, de notar também a bela revelação que é Rita Brütt, a filha mais velha que é a primeira a romper o cerco Salazarista às famílias, auto-exilando-se em Londres durante umas mini-férias. *****

28.11.07


«Big Sur» The Thrills 2003(single)


Sol de Inverno e um olhar para trás: um dos melhores singles pop de todos os tempos e como uma simples canção pode ser luminária, inspiradora e curadora. Infelizmente, os The Thrills, até ao 3º álbum, têm vindo a decrescer na qualidade da sua escrita e no brilho das suas canções. Mas, com «Big Sur», deixaram para sempre inscrita na História da Pop - ao lado de canções como, por exemplo, «There She Goes», dos La's - a sua visão West Coast do outro lado do Atlântico... Simplesmente genial.*****


26.11.07


«Patty Diphusa e outros textos» Pedro Almodóvar 2007 (livro)

Almodóvar é um grande conversador. E não é de agora. Já nos anos 80, quando a Movida Madrilena lhe deu espaço, conversava com os leitores através da coluna de Patty Diphusa na revista La Luna. Este livro começa aí. Conversa pós-moderna, tão brilhante quanto as cores garridas com que o cineasta veste as suas personagens e forra os seus cenários. Depois do «esgotamento» de Patty, ela regressa, nos anos 90, já com uma solidez de um discurso mais virado para as dores do coração do que o dorido do corpo. A imaginação não tem limites, como nos seus filmes, e a ginástica mental é hábil e desinibida. Alter-ego de Pedro, Patty é ainda hoje um símbolo da nova Espanha, da autêntica revolução socio-cultural que, nos anos 80, apontou o caminho da modernização e até da expansão económica. E Patty é uma grande conversadora...
Esta compilação agrupa ainda alguns outros textos de Pedro, tal como o ensaio «Conselhos para se conseguir ser um cineasta de fama internacional ». Divertido e culto. ****

24.11.07


«Daddy's Gone» Glasvegas 2007 (single/vinil)

São anunciados como a 1ª banda vinda de Glasgow desde há muitos anos capaz de encher estádios. Áparte o saudável sensacionalismo do jornalismo pop britânico, a verdade é que é bem capaz de ser verdade. Refrões pop à Big Music dos sixties, wall of sound cujas tags podem ir desde Phil Spector até Jesus and Mary Chain, as canções drumless dos Glasvegas tranformam o pub rock - com vernáculo incluído - em hinos de estádio, plenos de Oh Ohs! e frases orelhudas. Sim, poderão ser a banda por quem a Primavera da pop inglesa espera, poderão ser uma banda que faça acreditar outra vez na força popular de uma canção pop, depois de anos a ouvirmos a indie a implementar que less is more, songwriting concerned...*****

23.11.07



«I'm Not There - OST» Various 2007 (2XCD)

Ainda Dylan. Neste caso «dito» por outros, para a banda sonora do aventuroso filme de Todd Haynes, «I'm Not There». Se são sempre desiquilibrados aqueles discos que alinham uma série de artistas e bandas para reinterpretar temas clássicos de grandes nomes da História da música popular, nalguns casos o brilhantismo de algumas versões alumiam as piores, e a luz parece constante...

É o caso de «I'm Not There»: do Bom com distinção para All Along the Watchtower/Eddie Vedder até ao Excelente para Knockin' On Heaven's Door/Antony & The Johnsons (aqui, até eu me rendi a um ódio de estimação...), muitas notas intermédias podem ser atribuídas às versões que este disco engloba. Há o deleite em Just Like a Woman/Charlotte Gainsbourg & Calexico, o puro e calmo prazer em Simple Twist Of Fate/Jeff «Wilco» Tweedy, a boa surpresa em Highway 61 Revisited /Karon O & the Million Dollar Bashers, o envolvente Stuck Inside Of Mobile With the Memphis Blues Again/Cat Power, o dever bem cumprido e esticado em One More Cup Of Coffee/Roger McGuinn & Calexico, enfim... Razões de sobra para viajar mais uma vez na diversificada carreira dos Dylans. De qual deles? De todos eles. Um só. ****

19.11.07


Pavilhão dos Belenenses Editors 16.11.07 (concerto)

Desde o local do espectáculo, ao funcionamento deficiente dos bares, às 2 linhas de luz existentes num palco simples - muito simples - tudo referenciava os «gloriosos» anos 80, onde a produção de espectáculos ainda dava os primeiros passos no nosso país. À excepção de um piano vertical a meio do palco - muito Thom, muito Chris - e de um pequeno teclado digital usado pelo guitarrista apenas um par de vezes, nada mais do que uma voz cavernosa, a condução do baixo sob a bateria simples e eficaz, mais a guitarra solista exuberante e discreta que ondulava as sombras. Nada mais do que a verdade e a entrega. Um belo concerto, entre os fortes singles do primeiro disco e os temas mais épicos do segundo, com um encore absolutamente arrebatador, que para muitos terá valido a noite. Não se percebe ainda a intenção de Tom Smith - o cantor - quando sobe para cima do piano e abre os braços - mas quando sair o quarto disco já tudo estará esclarecido... ****

15.11.07


«Redacted» Brian de Palma 2007 (filme)

Num ano de alguns regressos à realização de grandes nomes do cinema, é Brian de Palma, que, surpreendentemente, assina um dos melhores filmes de guerra jamais feitos. Até à data é seguramente o melhor filme sobre a presença das tropas americanas em solo Iraquiano.
Palma edita em jeito de copy paste, cortando «o que não interessa» (to redact), uma combinação de away from home-movies feitos pelos soldados, câmaras de vigilância, documentários falsos de canais de tv estrangeiros, notícias de tv do mundo árabe, blogs, video-blogs, sites terroristas, fotos reais, tudo aquilo que possa descrever de modo fragmentado a verdade da guerra no campo de batalha. E mistura tudo na esperança que esses elementos possam dar uma visão de 360º sobre os vários campos opostos e a natureza humana. Ou do que resta dela em situações de conflito...
É nas camaratas e no solo árido que «Redacted» se concentra, tentando extrair «a verdade», como nos diz o jovem soldado de câmara em punho. E apesar da supremacia dos EUA, o mote é logo dado de início, quando o soldado sorri ao filmar um escorpião a ser imobilizado por... formigas! Melhor imagem não podia ser utilizada para, simbolicamente, descrever todo este war scenario, pior não podia ser o sorriso de um soldado que sorri à própria morte...
Baseado no caso verídico da violação de uma jovem de 15 anos por soldados americanos, seguida da sua morte e de vários elementos da sua família, na madrugada de 8 de Julho de 2006, «Redacted» é uma obra-prima do cinema contemporâneo. Ninguém vai ficar indiferente a este filme, os próprios EUA serão de certeza afectados na sua consciência depois de «Redacted» estrear em solo americano. Sim, porque hoje são as imagens que podem mudar o mundo. A câmara é uma arma. E como demonstra Palma, não há idade para fazer a diferença. *****


«Garage» Lenny Abrahamson 2007 (filme)

Àparte: Ao que parece, 2007 é o ano em que os novos cineastas - mas não só - exploram universalmente a desadaptação social, a solidão, e depressão e o suicídio, pela mostra que o European Film Festival Estoril nos destaca...
Josie é uma espécie de semi-tolo da aldeia, bem intencionado e com o coração enorme, sem a noção do que é socialmente correcto, como uma criança grande. Trabalha numa gasolineira, e lida com a rotina lenta e diária de uma pequena vila irlandesa. Quando um rapaz, menor, chega para ajudá-lo, a dificuldade de Josie em querer «pertencer» traz-lhe problemas, para ele coisas de somenos importância, para as regras rígidas de uma pequena povoação transgressões graves. E Josie não consegue lidar com as consequências daí decorrentes... Bela interpretação do comediante Pat Shortt num drama sem luz. ***